"Nunca pensei que ia ver ele assim de perto"
Por: Laura Uliana
Foi a frase que Dalízio Moura ouviu de duas senhoras enquanto dirigia-se a um lugar onde ia, em uma de suas primeiras apresentações, imitar o grande Elvis Presley. Quando foi virar-se para contar a verdade — a de que ele não era o Elvis — levou uma cutucada do produtor e deixou-as acreditar na fantasia. Era na Itália no ano de 2002, mas esta história reflete-se até hoje na fala carimbada em seu show: há um momento em que ele, profundamente triste e conturbado, revela que, na verdade, não é o Elvis.
Dalízio nasceu em 1969, filho de pais italianos. A história de sua mãe é bonita e daria uma reportagem por si só: ela veio jovem da Italia já casada no papel para conhecer seu esposo, Dalizio pai. A influência do pai veio forte no menino que, aos quinze anos, pegou um disco do Elvis em sua casa e parou para ouvi-lo com atenção. Apaixonado, dirigiu-se à banca de jornal e comprou uma biografia de Presley e, a partir dela, comprou a discografia e descobriu suas músicas. A partir deste momento, declarou-se fã.
Em 1992, a inflação no Brasil era diária. Moura era jovem, recém formado na faculdade de educação física, e trabalhava como professor de natação. Após ir em um barzinho divertir-se em uma noite e gastar o salário do mês, percebeu que o Brasil não era mais seu lugar. Seu pai deu a opção de viajar para a Itália e passar um ano lá; o jovem menino gostou tanto que ficou por quinze anos.
E foi justamente na Itália que descobriu seu talento como imitador do grande Rei do Rock. Como gostava de cantar (aprendera a cantar e tocar violão ainda menino no Brasil), foi contratado para apresentar-se por duas noites: uma sexta-feira e um sábado. Ao final da primeira apresentação, o produtor conversou com ele e pediu para fazer algo que chamasse mais a atenção do público, alguma coisa diferente. Foi então que ele sugeriu fazer uma imitação do Elvis.
Ao final da segunda apresentação, um jornalista foi falar com ele. Perguntou há quanto tempo ele imitava Presley e ele respondeu: “Olha, faz umas duas horas!” Surpreso, o jornalista o convidou para o Festival della Melodia, no qual ele faria uma turnê pela Itália em um concurso. Dalízio ganhou a competição e, como prêmio, gravou um CD; toda a renda arrecadada com as vendas do disco foi doada para a pesquisa da cura do câncer.
E o jovem continuou na Itália, fazendo o cover e trabalhando como motorista de furgão, até seus pais irem, passarem quatro anos junto dele e voltarem ao Brasil. No começo do novo milênio, ele decidiu regressar à terra natal. Da viagem, trouxe lembranças, discos, objetos de colecionista sobre o Elvis e sua experiência como cantor.
Com o passar dos anos, Moura foi conquistando uma pequena fama na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, abrindo shows de artistas consagrados, como Fábio Júnior e a banda Roupa Nova, e fazendo suas performances em feiras de carros antigos, ligando-se à paixão de seu grande ídolo.
Em 2014, ele realizou seu grande sonho: abriu um Fã Clube para o Elvis Presley, o “Elvis Forever Fã Clube,” em sua própria casa. Lá, realiza shows para cerca de cinquenta pessoas todas as sextas-feiras.
O fã clube é, para ele, um espaço de interação necessário nesta atualidade na qual todas as relações são permeadas pela internet e pelas mídias sociais. Segundo Dalízio, o local proporciona o contato, a interação, o “olho no olho” entre os fãs, algo raro hoje em dia.
Durante seu show, ele criou algo que é uma sensação entre os frequentadores do local: o Stand-Up do Elvis, durante o qual ele conta suas histórias de carreira, assim como as histórias da carreira de seu ídolo, de maneira bem humorada entre as músicas, causando grande riso entre seu público. Sua inspiração vem de si mesmo, que diz considerar-se “ridículo.” A história citada no começo do texto é um exemplo do que é contado em seu show humorístico.
Mas nem tudo são risos: por ter sofrido com o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), ele tece severas críticas à política nacional em cima de seu palco, causando grande incômodo por parte de sua mãe. Ao conversar com ela, percebe-se grande preocupação à exposição do filho desta maneira e teme que ele seja alvo de represálias. Porém, ele, que afirma que seria político caso não fosse artista, deseja mudar o mundo e tem suas ideias para a melhoria da política, desde o âmbito local até projeção nacional; enquanto não consegue pô-las em prática, ele critica duramente o governo e nossos representantes.
Seu fã-clube é um ambiente familiar, voltado para os apreciadores da boa música; seu repertório é composto por faixas conhecidas, mas também pelas menos populares, do Elvis. O que mais o agrada é que “ninguém olha torto pra ninguém” e todos estão lá para aproveitar uma boa noite.
Há quase dois anos, Dalízio mantém seu espaço com a ajuda da esposa e dos amigos, que trabalham na cozinha e como garçons, todos muito animados. Além deles, há os frequentadores assíduos e pessoas que vão apenas para conhecer o espaço, todos interagindo em clima de amizade.
Atualmente, seu trabalho é reconhecido pela grande importância cultural para a cidade de Sorocaba e para a preservação da imagem e da memória de Elvis Presley, sendo reconhecido até mesmo por comunidades internacionais ligadas ao Rei do Rock.
